Tesão Literário
Adoro escrever. Não me considero nem de longe um escritor e
nem tenho vontade publicar um livro. Apenas não consigo me conter quando as
palavras se juntam em um cantinho do meu cérebro e começam a montar uma
história qualquer. Corro para o notebook e começo a tamborilar no teclado como
se uma força maior movesse meus dedos.
Quando tinha quatorze anos comecei a extravasar minhas
emoções através de poemas. A maioria tinha como tema a situação política na
qual vivíamos nos anos 70. Minha experiência com as manifestações de rua contra
a ditadura militar foi rápida e me mostrou que não íamos muito longe se não
pegássemos em armas, como o “inimigo”. Assim, fiz da máquina de escrever minha
metralhadora.
Também escrevi sobre o amor. Esse sentimento que, durante a
adolescência a gente jura entender, mas que não temos a menor ideia do que
significa. Minhas paixões proibidas, reprimidas não correspondidas íam
encontrar lugar nas páginas de um caderno, mantido secreto pelo receio daquilo
parecer “coisa de menina”.
Eram outros tempos. Rapazes estudavam medicina, engenharia
ou direito. Alguns tornavam-se professores e a maioria parava em algum curso
técnico, o que era o bastante para lhes garantir emprego pelo resto da vida.
Escritores, compositores, artistas enfim, era coisa de gente
rica ou de uma pequena casta que vivia nas capitais. Um garoto do interior,
classe média, tinha mesmo era que meter a cara nos livros e se formar, pelo
menos, no ensino médio.
A casa estava cheia, não me lembro porque. Entre os
convidados havia um tio de quem eu gostava muito. Era um tipo bonachão,
debochado e alegre. Além disso, era quem resolvia os problemas de ordem prática
para toda a família de minha mãe. Hoje entendo que ele compensava a falta de
estudo com toda aquela atividade...
Eu estava no meu quarto, escrevendo uma poesia. Nunca fui
muito fã desse tipo de literatura, mas uma paixão fazia arder meu coração e eu
precisava de uma forma mais adequada para expressar aquele furor. Sem qualquer
aviso, meu tio entra no quarto. A meia luz, o incenso e o garoto sentado no
chão com um caderno na mão era uma visão inusitada para ele.
- O que você está fazendo? Ele perguntou enquanto vinha em
minha direção.
- Estou escrevendo um pouco, tio. Enquanto respondia, fechei
o caderno numa atitude que demonstrasse que aquilo não era de seu interesse.
Ele, no entanto, pegou o caderno da minha mão e começou a
folhear.
- O que é isso?
- são uns poeminhas que escrevo para passar o tempo.
Ele parou em uma página e começou a ler.
- É... Muito bom. Você podia ganhar um dinheirinho com isso
trabalhando na zona. As meninas lá pagam para os caras escreverem para elas,
sabia? Entregou-me o caderno e saiu sem se despedir.
Não sei o que foi mais impactante, se o fato dele ter saído
do quarto como se eu não significasse nada ou ele ter dito que eu tinha futuro
como poeta de prostíbulo. O fato é que fiquei um bom tempo sem coragem ou
inspiração para escrever.
Mas aquilo me fazia falta. Nas noites insones, eu pegava um
livro e com vinte minutos de leitura a vontade de escrever me tomava por
completo. Como eu não podia usar máquina de escrever, por causa do barulho,
comecei a usar um outro caderno. Assim eu poderia escrever durante toda a noite
sem incomodar ninguém.
Um dia, conversando com um amigo sobre política, falei sobre
meus poemas. Ele ficou muito interessado e pediu para vê-lo. Eu nele o
suficiente para não me preocupar em satisfazer seu pedido. Depois de ler
algumas páginas, ele me deu a ideia de mostrar a um professor de Português que
tínhamos no colégio e que era muito severo e competente.
- Cara, isso é genial! Mas por que você não mostra ao
professor Geraldo? Ele pode lhe dar algumas ideias, dizer se é publicável ou
não, fazer uma revisão e ver se tem algum erro gramatical.
- Vou pensar nisso. A empolgação dele me pareceu sincera o
bastante para me convencer. Não que eu tivesse a pretensão de publicar aquilo.
Àquela época, publicar um livro era uma coisa inimaginável para “meros
mortais”, principalmente para um garoto de quatorze anos.
Passei o caderno a limpo, reescrevendo e revisando os
sessenta poemas que eu considerava melhores e levei para o professor. Ele não
fez muito caso. Pegou o caderno, guardou na pasta de couro que sempre o
acompanhava e me disse que quando pudesse “daria uma lida”.
Naquela ocasião eu me preparava para a prova de ingresso
numa escola técnica de eletrônica. Meu grupo de amigos havia me convencido de
que era o melhor caminho a seguir. Embarquei no sonho deles como se meu fosse.
Estudávamos juntos às terças e quintas à tarde em minha casa. Nos outros dias
eu o fazia sozinho.
Com isso, o tempo passou sem que eu me desse conta. Passado
mais de um mês, um dia encontrei o professor no corredor do colégio e lhe
perguntei sobre o caderno. Ele disse que me entregaria no dia seguinte. A
impressão que tive foi a mesma que temos quando vamos buscar o sapato que
deixamos com o sapateiro e ele diz: “já está pronto” e entra para sua oficina,
faz o conserto na hora e lhe entrega o sapato.
Até então eu não me mostrara ansioso, mas com a expectativa
da entrega, torci para que chegasse logo o dia seguinte, quando eu teria aula
de Português.
- Ferraz! Chamou-me com a voz grave de sempre.
Fui até sua mesa. Ele puxou o caderno de dentro da pasta e
me entregou sem dizer nenhuma palavra. Engolindo o medo que eu, e todos nós,
tínhamos dele, lhe perguntei:
- Então, professor, o que o senhor achou?
Sem sequer levantar os olhos e continuando a fazer as
anotações que começara a fazer logo após entregar-me o caderno, ele disse:
- Tem um bonzinho aí, esse que fala do brilho das espadas.
Os outros são muito herméticos. Você tem que viver mais; quem sabe daqui a uns
anos você tenha algo interessante para escrever? Vá se sentar.
Enquanto eu me dirigia a minha carteira, tomei a decisão de
nunca mais escrever poemas ou poesias ou o que quer que tivesse a pretensão de
parecer material literário.
Quatorze anos depois me casei e me veio uma vontade muito
grande de registrar aqueles momentos tão lindos que vivíamos. Rabisquei algumas
páginas em segredo. Depois vieram meus filhos e decidi escrever um diário para
que nenhuma lembrança se perdesse. Com essa prática, voltei a escrever.
O computador pessoal, entrou em nossas vidas, aposentando a
máquina de escrever. Com a facilidade de deletar erros e ideias desconexas,
deslanchei. Hoje tenho centenas de “ponto doc” guardados em disquetes, cds e em
hds. Até fui premiado pela Academia Brasileira de Letras em um concurso de
redação para professores! Também ganhei um livro em outro concurso, promovido
pela editora Segmento, com um texto sobre Educação.
Aos cinquenta e tanto não sou escritor. Não publiquei um
livro. Não tenho sequer uma coluna no jornal local. Não me importo. Continuo
escrevendo como forma de libertar minha alma, deixa-la voar, se revelar.
Escrevo como que toca um violão ou faz rapel ou joga bola depois do trabalho. É
minha cachaça, meu Lexotan, minha busca de paz.
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